Toda história possui um ponto de partida.

A nossa não começou em uma exposição de cães, nem com o nascimento de uma grande linhagem.

Ela começou dentro de casa.

Em 2023, Anne e eu recebemos nossa primeira Shiba Inu, Kaori.

Naquele momento, não imaginávamos que ela mudaria completamente nossa forma de enxergar a cinofilia.

Como já convivíamos com gatos, desde o primeiro dia entendemos que a convivência harmoniosa dependeria de educação, confiança e comunicação.

Foi nesse processo que começamos a descobrir uma característica marcante da raça.

Aquilo que muitas pessoas chamavam de "teimosia" parecia, na verdade, algo muito diferente.

Kaori não deixava de obedecer por falta de inteligência.

Ela simplesmente precisava compreender quem estava ao seu lado.

Precisava confiar.

Precisava perceber segurança, coerência e respeito.

Quando essa relação era construída, respondia com uma lealdade difícil de descrever.

Foi nesse momento que percebemos que o Shiba Inu não deveria ser compreendido através de estereótipos.

Era preciso compreender sua história.

Sua função.

Sua origem.

Essa descoberta mudou completamente nossa maneira de estudar a raça.

A busca por compreender antes de criar

Minha formação é em Engenharia de Software.

Ao longo da carreira, aprendi que sistemas complexos somente podem ser compreendidos quando conhecemos sua origem e a função de cada componente.

Naturalmente, acabei levando essa mesma forma de pensar para a cinofilia.

Sempre que iniciava um novo estudo, a pergunta era a mesma:

"Por quê?"

Por que o Shiba possui essa estrutura?

Por que apresenta esse temperamento?

Por que essa movimentação?

Por que essa pelagem?

Quanto mais estudávamos, mais percebíamos que praticamente todas essas respostas estavam ligadas à história da raça.

A função explica a forma.

A função explica o temperamento.

A função explica o padrão.

Essa filosofia passou a orientar todo o nosso programa de criação.

A estreia nas exposições

Em 2024, Kaori iniciou sua primeira campanha nas exposições de conformação.

Entrávamos naquele universo como completos estreantes.

Cada exposição representava um aprendizado.

Cada avaliação acrescentava uma nova perspectiva sobre o padrão da raça.

Ao final daquela temporada, Kaori conquistou o título de Shiba Inu Jovem Nº 1 do Brasil e encerrou o ano como a fêmea adulta Nº 2 do ranking nacional.

Naturalmente, esses resultados trouxeram enorme alegria.

Entretanto, o maior prêmio daquele primeiro ano não foram os títulos.

Foi perceber quanto ainda existia para aprender.

As exposições despertaram em nós uma curiosidade ainda maior pela raça.

Queríamos compreender não apenas quais cães venciam.

Queríamos entender por que venciam.

O início de uma filosofia

Foi justamente nesse momento que nasceu aquilo que hoje representa a essência do Ninpozan Kennel.

Percebemos que criar cães não significava apenas reproduzir bons exemplares.

Criar exigia estudar.

Pesquisar.

Questionar.

Aprender continuamente.

Cada pedigree passou a contar uma história.

Cada acasalamento passou a representar uma decisão cuidadosamente planejada.

A partir daquele momento, estabelecemos um compromisso simples, mas permanente:

Nunca deixar de estudar a raça.

Porque acreditamos que preservar um Shiba Inu começa muito antes do nascimento de um filhote.

Começa no conhecimento acumulado por quem toma as decisões.

A busca pela consistência

Ao final da campanha de Kaori, uma nova pergunta surgiu naturalmente.

Como deveria ser o próximo passo?

Nossa intenção nunca foi simplesmente encontrar um macho campeão para produzir uma ninhada.

Naquele momento, já compreendíamos que um bom programa de criação precisa olhar muito além dos títulos conquistados em pista.

Todo cão possui qualidades.

Todo cão também possui limitações.

A responsabilidade do criador consiste justamente em reconhecer ambas com honestidade.

Foi nesse período que comecei a desenvolver uma característica que considero indispensável para qualquer criador sério: o pensamento crítico.

Apaixonar-se pelos próprios cães é natural.

Permitir que essa paixão impeça uma análise objetiva de suas qualidades e limitações é um dos maiores riscos dentro de qualquer programa de criação.

Kaori possuía inúmeras virtudes.

Mas também apresentava características que poderiam ser aprimoradas.

Nosso objetivo deixou de ser encontrar um excelente reprodutor.

Precisávamos encontrar o reprodutor certo para ela.

O pedigree conta uma história

Foi nesse momento que mergulhei profundamente no estudo de pedigrees.

Durante meses, analisei linhagens de diferentes continentes, acompanhei resultados de exposições, comparei programas de criação e procurei compreender como determinados cães conseguiam produzir descendentes consistentes geração após geração.

Logo percebi que analisar apenas um grande campeão dizia muito pouco.

Um cão extraordinário pode surgir por inúmeros fatores.

O verdadeiro desafio consiste em produzir excelentes cães repetidamente.

Essa consistência é muito mais difícil de alcançar.

E talvez seja o melhor indicador da qualidade de um programa de criação.

Quando a engenharia encontrou a cinofilia

Minha formação como engenheiro de software acabou influenciando diretamente essa pesquisa.

Em vez de analisar apenas alguns cães manualmente, decidi desenvolver uma ferramenta capaz de organizar informações sobre os principais vencedores das maiores competições do mundo.

O sistema reuniu resultados provenientes de diferentes entidades cinófilas, incluindo competições organizadas pela FCI, pelo The Kennel Club e pelo American Kennel Club (AKC).

A partir desses dados, surgiu uma nova pergunta.

Quais canis aparecem repetidamente por trás desses grandes vencedores?

Essa segunda análise revelou algo muito mais interessante do que simplesmente descobrir quais eram os cães mais premiados.

Ela mostrou quais programas de criação conseguiam produzir excelentes exemplares de forma consistente, geração após geração.

Um nome aparecia repetidamente

Entre centenas de cães analisados, um afixo surgia com impressionante frequência.

Vormund.

Inicialmente conhecido mundialmente por seu extraordinário trabalho com Rottweilers, o canil também havia construído uma trajetória histórica na criação do Shiba Inu.

Não se tratava apenas de produzir campeões.

Tratava-se de produzir gerações sucessivas de cães capazes de vencer nas maiores exposições do mundo.

Essa diferença chamou imediatamente minha atenção.

Eu não procurava um cão.

Procurava uma filosofia de criação.

Muito antes de reservar um filhote

A decisão de trazer um cão do Reino Unido não aconteceu rapidamente.

Antes da primeira reserva, passamos muitos meses conversando com Michaella Dunhill.

Nossas conversas raramente giravam em torno da compra de um filhote.

Falávamos sobre pedigrees.

História da raça.

Critérios de seleção.

Linhagens japonesas.

Função.

Temperamento.

Estrutura.

Quanto mais aprendíamos sobre a filosofia do Vormund, mais percebíamos que nossos princípios eram muito semelhantes.

Ambos acreditavam que títulos representam consequências.

Nunca objetivos.

O verdadeiro objetivo sempre foi preservar o Shiba Inu.

Foi somente quando sentimos que compartilhávamos essa mesma visão que decidimos dar o próximo passo.

Reservamos nosso primeiro filhote.

Naquele momento ainda não imaginávamos que ali estava sendo firmado o maior alicerce do Ninpozan Kennel.

O encontro com o Vormund

Depois de muitos meses estudando pedigrees, acompanhando resultados internacionais e conversando com Michaella Dunhill, finalmente chegou o momento de tomar uma decisão.

Reservamos nosso primeiro filhote.

Mais do que escolher um cão, estávamos escolhendo uma filosofia de criação.

Aquele filhote seria filho de um dos maiores Shibas da história recente da raça.

Vormund Xmas Bonus, conhecido mundialmente como Yang.

Naquele momento, Yang já era amplamente reconhecido como um dos principais representantes da raça no Reino Unido e acumulava resultados extraordinários nas maiores exposições do mundo.

Entretanto, sua importância ia muito além dos títulos.

Yang representava décadas de seleção criteriosa conduzida pelo programa de criação Vormund.

Por trás daquele pedigree existiam gerações de decisões cuidadosamente planejadas.

Era exatamente isso que procurávamos.

Uma viagem que mudou nossa forma de enxergar a cinofilia

Em março de 2025 viajamos ao Reino Unido para buscar nosso filhote.

Planejamos a viagem para coincidir com Crufts.

Para quem vive a cinofilia, Crufts representa muito mais do que uma exposição.

É um encontro entre alguns dos melhores cães, criadores, handlers e juízes do mundo.

Poder assistir aquele evento já seria uma experiência inesquecível.

Mas tivemos um privilégio ainda maior.

Fomos recebidos pela equipe Vormund e acompanhamos de perto toda a preparação para a entrada em pista.

Observamos detalhes que dificilmente aparecem para o público.

A rotina dos handlers.

A preparação dos cães.

A tranquilidade com que cada decisão era tomada.

O respeito pelos animais.

A organização.

O profissionalismo.

Mais do que aprender técnicas de apresentação, tivemos a oportunidade de compreender a cultura construída por um dos programas de criação mais bem-sucedidos da história da raça.

Foi um aprendizado que levaremos para toda a vida.

Ver Yang competir

Existem momentos que permanecem para sempre na memória.

Assistir Yang entrar naquela pista foi um deles.

Naquele dia, aproximadamente cento e vinte Shibas competiam em uma das maiores e mais tradicionais exposições do mundo.

Cada exemplar representava anos de seleção realizada por grandes criadores internacionais.

Mesmo diante desse nível extraordinário de competição, Yang conquistou novamente o título de Melhor da Raça (Best of Breed).

Em seguida, avançou para a disputa do Grupo 5 e voltou a se destacar entre algumas das raças mais emblemáticas da cinofilia mundial.

Naquele instante, ainda era difícil acreditar.

O pai do filhote que em poucos dias viajaria conosco para o Brasil acabava de vencer a maior exposição do mundo.

Não era apenas uma vitória.

Era a confirmação de que todo o trabalho desenvolvido pelo programa Vormund possuía uma consistência extraordinária.

Os resultados oficiais de Crufts 2025 podem ser consultados em Fossedata — Crufts 2025 Results.

Muito além dos títulos

Os resultados de Yang impressionam qualquer apaixonado pela raça.

Três títulos de Melhor da Raça em Crufts.

Vitórias em AKC National Championship.

Posteriormente, a conquista de Melhor da Raça no Campeonato Mundial da FCI em Bolonha, Itália.

Entretanto, aquilo que mais nos marcou nunca foi a quantidade de títulos.

Foi perceber que, por trás de cada conquista, existia exatamente a mesma filosofia que procurávamos construir.

Cada acasalamento era pensado para preservar a raça.

Cada geração buscava evoluir sem perder sua identidade.

Cada decisão demonstrava profundo respeito pela história do Shiba Inu.

Naquele momento compreendemos que não estávamos simplesmente importando um cão.

Estávamos trazendo para o Brasil parte de uma tradição construída durante décadas.

A chegada de Banger

Poucos dias depois deixávamos o Reino Unido trazendo conosco Vormund Glastonbury, carinhosamente chamado de Banger.

Como qualquer filhote, ele ainda carregava muito potencial e poucas certezas.

Nenhum criador sério consegue prever exatamente até onde um filhote chegará.

Por melhor que seja seu pedigree, o desenvolvimento depende de inúmeros fatores.

Ainda assim, existia uma convicção.

Sabíamos que estávamos iniciando um novo capítulo dentro do programa de criação do Ninpozan.

Banger representava muito mais do que um excelente pedigree.

Ele representava anos de estudo, pesquisa e decisões tomadas com calma.

Era a materialização de uma filosofia que havia começado muito antes daquela viagem.

Quando preparação encontra oportunidade

Existe uma frase frequentemente atribuída ao filósofo romano Sêneca:

"A sorte é o encontro entre a preparação e a oportunidade."

Ela resume muito bem aquilo que vivemos.

Durante meses estudamos pedigrees.

Analisamos resultados.

Conversamos com criadores.

Questionamos nossas próprias escolhas.

Quando finalmente surgiu a oportunidade de trazer um filho de Yang para o Brasil, já sabíamos exatamente por que aquele era o cão que procurávamos.

Não foi uma decisão impulsiva.

Foi uma consequência natural de tudo aquilo que havíamos aprendido até então.

Quando o potencial encontrou as pistas

Quando Banger chegou ao Brasil, ele era exatamente aquilo que qualquer bom filhote deve ser.

Uma promessa.

Seu pedigree era extraordinário.

Sua construção chamava atenção.

Sua linhagem reunia alguns dos nomes mais importantes da história recente da raça.

Mas, como acontece com qualquer cão jovem, ainda existia uma pergunta impossível de responder.

Como ele se desenvolveria?

Nenhum pedigree garante resultados.

Nenhum grande campeão consegue transmitir todas as suas qualidades a cada descendente.

Na cinofilia, o potencial sempre precisa ser confirmado pelo tempo.

Por isso, nossa maior preocupação nunca foi conquistar títulos rapidamente.

Nosso objetivo era permitir que Banger amadurecesse respeitando cada etapa do seu desenvolvimento.

Queríamos apresentar um cão feliz, equilibrado e preparado para competir.

Os resultados seriam consequência.

Os primeiros sinais

Pouco tempo depois das primeiras exposições, começamos a perceber algo incomum.

Banger apresentava uma regularidade muito acima do esperado para um filhote.

Enquanto muitos cães alternam excelentes apresentações com outras ainda imaturas, ele demonstrava consistência.

Sua movimentação.

Sua postura.

Sua segurança em pista.

Tudo evoluía de maneira extremamente natural.

Os resultados começaram a aparecer rapidamente.

Primeiro vieram as vitórias na classe Bebê.

Depois, os rankings.

Na sequência, a classe Filhote.

Em pouco tempo, Banger tornou-se o Shiba Bebê mais vencedor da história do Brasil e encerrou a temporada como o Shiba Nº 1 do ranking nacional da categoria.

Posteriormente, repetiu esse desempenho também na classe Filhote.

Naturalmente, esses resultados trouxeram enorme satisfação.

Mas o aspecto que mais nos impressionava continuava sendo outro.

Sua evolução.

Cada exposição parecia confirmar que aquele potencial observado ainda no Reino Unido realmente estava se transformando em realidade.

Crescendo sem perder a essência

Existe um desafio silencioso enfrentado por muitos cães extremamente vitoriosos ainda jovens.

A pressão por resultados.

Quanto maiores as expectativas, maior costuma ser a tentação de acelerar etapas.

Desde o início decidimos seguir um caminho diferente.

Continuamos tratando Banger como um cão em desenvolvimento.

Cada vitória representava apenas mais um passo.

Cada derrota, uma oportunidade de aprender.

Cada avaliação recebida em pista ajudava a compreender melhor suas qualidades e também os aspectos que naturalmente evoluiriam com a maturidade.

Essa tranquilidade permitiu que ele continuasse crescendo física e emocionalmente sem perder aquilo que sempre consideramos mais importante.

Sua naturalidade.

Um ano que superou todas as expectativas

Ao final de 2025, Banger encerrava sua campanha jovem como Shiba Inu Jovem Nº 1 do Brasil.

Ao longo daquela temporada conquistou mais de sessenta e oito Certificados de Aptidão a Campeonato (CACs), um número extremamente expressivo para um exemplar ainda em desenvolvimento.

Também conquistou diversas classificações em grupos e vitórias de Best in Show, resultados pouco comuns para a raça nas exposições brasileiras.

Mais do que números, porém, aquele primeiro ano confirmou algo muito maior.

A filosofia que havia iniciado com Kaori, amadurecido através dos estudos e sido consolidada durante nossa parceria com o Vormund estava produzindo exatamente aquilo que esperávamos.

Não apenas um cão vencedor.

Mas um Shiba que expressava, em pista, tudo aquilo que acreditávamos sobre a raça.

Um novo capítulo

Os resultados obtidos por Banger mudaram completamente a forma como passamos a enxergar o futuro do Ninpozan Kennel.

Até então, nosso principal objetivo era aprender.

Agora surgia uma nova responsabilidade.

Dar continuidade àquela linhagem.

Preservar suas qualidades.

Planejar cuidadosamente a próxima geração.

Mais uma vez, voltávamos ao ponto onde tudo havia começado.

Estudar.

Pesquisar.

Questionar.

Porque um programa de criação nunca termina quando nasce um grande cão.

Na realidade, é justamente nesse momento que o verdadeiro trabalho começa.

Planejando a próxima geração

Existe um momento na trajetória de todo programa de criação em que uma pergunta inevitavelmente surge.

"E agora?"

Depois da chegada de um grande exemplar, o caminho aparentemente mais simples seria apenas encontrar uma boa fêmea e iniciar a reprodução.

Entretanto, essa nunca foi nossa maneira de pensar.

Na realidade, acreditamos que é justamente nesse momento que o verdadeiro trabalho do criador começa.

Produzir uma ninhada é relativamente simples.

Planejar uma geração exige estudo.

Não procurávamos uma fêmea. Procurávamos uma continuação.

Ao iniciar o planejamento do futuro do Ninpozan Kennel, nossa preocupação nunca foi simplesmente encontrar uma excelente matriz.

Precisávamos encontrar uma fêmea que complementasse Banger sob todos os aspectos importantes para um programa de preservação da raça.

Fenótipo.

Genética.

Temperamento.

Estrutura.

Saúde.

Consistência das linhagens.

Cada uma dessas características precisava fazer sentido dentro de um único projeto.

Na criação responsável, dois excelentes cães nem sempre formam um excelente acasalamento.

O verdadeiro desafio consiste justamente em compreender quais qualidades cada indivíduo poderá transmitir à geração seguinte.

Pensando em décadas. Não em uma ninhada.

Durante nossos estudos, percebemos que muitos programas de criação concentram suas decisões na próxima ninhada.

Nossa filosofia tornou-se diferente.

Sempre procuramos imaginar como determinada decisão poderá influenciar não apenas os próximos filhotes, mas também as gerações que ainda nascerão muitos anos depois.

Esse tipo de planejamento exige paciência.

Exige abrir mão de decisões imediatas em favor de um objetivo muito maior.

Preservar uma linhagem.

Essa visão de longo prazo passou a orientar cada escolha realizada pelo Ninpozan Kennel.

Mais uma vez, voltamos ao Vormund

Naturalmente, nossas pesquisas voltaram ao mesmo lugar onde tudo havia começado.

O programa de criação Vormund.

Depois de muitos meses discutindo possibilidades com Michaella Dunhill, começamos a estudar diferentes combinações genéticas que pudessem dar continuidade à filosofia que pretendíamos construir no Brasil.

Mais uma vez, a escolha não aconteceu rapidamente.

Cada pedigree foi analisado.

Cada ancestral possuía um motivo para estar presente.

Cada geração contava uma parte daquela história.

Pouco a pouco, uma combinação começou a fazer cada vez mais sentido.

O encontro com Nuka

Foi assim que conhecemos Vormund Nuka Cola, ou simplesmente Nuka.

Filha de Meishu no Ryuzin Go Harimaya JP, um extraordinário exemplar japonês cuja linhagem permanece altamente valorizada até hoje, e de Vormund Hollywood Lady, Nuka reunia exatamente aquilo que procurávamos.

Ela trazia consigo forte influência das tradicionais linhagens japonesas preservadas pelo Vormund, ao mesmo tempo em que mantinha continuidade com alguns dos cães mais importantes da história recente do canil.

Entre eles encontrava-se Kaga no Shouji Go Sapporo Kagasou, conhecido simplesmente como Shouji.

Poucos cães exerceram influência tão marcante sobre a criação moderna do Shiba Inu no Reino Unido.

Sua qualidade tornou-se referência para gerações inteiras.

Curiosamente, Shouji também ocupa posição importante na linhagem de Banger.

Essa convergência não aconteceu por acaso.

Ela fazia parte do planejamento.

Da mesma forma, Nuka descende de Vormund Flo Rider, filha da lendária Vormund Norma Jean, uma das fêmeas mais importantes da história do canil e responsável por consolidar características que permanecem presentes até hoje em diversas gerações do Vormund.

Cada ancestral presente naquele pedigree possuía uma função dentro do programa de criação.

Nada estava ali por coincidência.

Muito além de um linebreeding

Na cinofilia, o termo linebreeding costuma ser frequentemente associado apenas ao grau de parentesco entre dois cães.

Entretanto, quando utilizado de forma consciente, ele representa algo muito mais profundo.

Um linebreeding bem planejado procura aumentar a previsibilidade genética de determinadas características consideradas desejáveis, preservando tipo racial, expressão, movimentação, temperamento e identidade da raça.

Ele nunca deve ser utilizado como um objetivo em si.

Seu valor depende exclusivamente da qualidade dos indivíduos envolvidos e da capacidade do criador de compreender profundamente as linhagens que está utilizando.

Foi exatamente essa lógica que orientou nosso planejamento.

Não buscávamos repetir nomes famosos.

Buscávamos preservar características que admirávamos há muitos anos.

Um privilégio inesquecível

Em dezembro de 2025 viajamos aos Estados Unidos para acompanhar o AKC National Championship, uma das competições mais importantes da cinofilia mundial.

Mais uma vez tivemos o privilégio de acompanhar de perto a equipe Vormund.

Naquela ocasião, Yang voltou a demonstrar toda a consistência que admirávamos, conquistando novamente importantes vitórias.

Entretanto, aquele evento nos reservava uma lembrança ainda mais especial.

Michaella confiou a mim a condução de Vormund Coachella, irmã completa de Banger, durante parte da competição.

Poucos momentos representam tamanho reconhecimento para alguém que ainda estava construindo sua trajetória na raça.

Mais do que conduzir uma excelente Shiba Inu em pista, tive a oportunidade de representar, ainda que por alguns minutos, um programa de criação que havia transformado completamente nossa forma de enxergar a cinofilia.

Ao final daquela viagem, retornamos ao Brasil trazendo Nuka.

Com sua chegada, encerrava-se um capítulo importante da nossa história.

E outro, muito maior, estava apenas começando.

O valor dos bons mentores

Existe um princípio que sempre procuramos seguir no Ninpozan Kennel.

Quem deseja preservar uma raça deve, antes de tudo, aprender com aqueles que dedicaram uma vida inteira à sua preservação.

Livros são importantes.

Seminários são fundamentais.

Artigos científicos ampliam nossa compreensão.

Mas existe um tipo de conhecimento que dificilmente pode ser encontrado em qualquer publicação.

A experiência acumulada ao longo de décadas convivendo diariamente com uma raça.

Foi justamente por esse motivo que, desde o início da nossa trajetória, buscamos estar próximos de pessoas que não apenas venceram grandes exposições, mas que ajudaram a construir parte da história moderna do Shiba Inu.

Entre essas pessoas estão Liz Dunhill e sua filha, Michaella Dunhill.

Durante décadas, através do afixo Vormund, ambas desenvolveram um dos programas de criação mais consistentes da história da raça, produzindo gerações sucessivas de cães vencedores nas maiores exposições do mundo.

Naturalmente, resultados como esses despertam admiração.

Entretanto, aquilo que mais valorizamos nunca foram os títulos.

Foi a oportunidade de compreender como essas decisões eram tomadas.

Conversar sobre pedigrees.

Discutir diferentes combinações genéticas.

Entender por que determinado acasalamento fazia sentido.

Ouvir histórias sobre cães que moldaram gerações inteiras.

Aprender a enxergar além dos resultados imediatos.

Esse tipo de conhecimento dificilmente pode ser transmitido apenas através de um livro.

Ele nasce da convivência, das conversas e da disposição de ouvir quem percorreu esse caminho antes de nós.

Acreditamos que um bom programa de criação nunca deixa de aprender.

Por esse motivo, continuamos estudando diariamente, participando de exposições, visitando criadores, acompanhando julgamentos e procurando compreender como diferentes países preservam a raça.

Mais do que buscar respostas prontas, procuramos desenvolver uma forma de pensar.

Porque preservar o Shiba Inu exige muito mais do que conhecimento técnico.

Exige respeito pela história construída por aqueles que dedicaram a vida à raça.

Essa talvez seja uma das maiores lições que recebemos ao longo da nossa trajetória.

"Na cinofilia, conhecimento não pertence a uma única geração. Ele é transmitido, aprimorado e preservado por aqueles que compreendem a responsabilidade de levar a raça adiante."